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Gazeta do Povo | Eu fiz o magistério

Publicado: novembro, 2016

Gazeta do Povo | Eu fiz o magistério

Artigo Publicado na Gazeta do Povo em 21/10/2010

Escrito Por: Raquel Adriano Momm Maciel de Camargo – diretora CEEeu_fiz_o_magistrio

Essa frase tem até hoje a incrível capacidade de trazer à tona dois comportamentos bem distintos num grupo de professores. De um lado, aquelas (ou também aqueles) que fizeram o magistério. De outro os que não fizeram.

Não importa quantas graduações, ou pós-graduações cada um tem no seu currículo, naquele momento é como se um grande divisor surgisse na sala de professores. Os primeiros, tornam-se falantes, alegres, contam com entusiasmo como aquilo sim, era curso que ensinava a dar aulas.

Os demais, ficam meio aquietados, com um leve sorriso no rosto, escutando atentamente como quem gostaria de desvendar afinal algum segredo que possa escapar entre as falas alegres e misturadas dos colegas de trabalho.

Eu fiz o magistério. E não conseguiria desvendar para você o que afinal faz esse curso ser tão especial para as pessoas que o fizeram à moda antiga. Era um curso de segundo grau (ensino médio, traduzindo para os mais jovens) que substituía diversas disciplinas do científico ou propedêutico por matérias didáticas e pedagógicas.

Talvez, o mais especial era mesmo a época da vida que era cursado. Com idade entre quinze e dezessete anos, numa época que a inocência não era roubada tão cedo, passávamos uma boa parte da aula sonhando.

Sonhávamos com tudo aquilo que uma adolescente (aos dezessete éramos adolescentes sim!) dessa idade costuma sonhar. E entre esses sonhos, éramos a melhor das professoras que um aluninho poderia vir a ter.

Um dos momentos mais especiais eram os primeiros estágios. Ser chamados de professor pelas crianças era um momento ímpar. – Vocês ainda não são professores, mas para os alunos é como se vocês já fossem – dizia a professora de didática. Aquela sensação era especial. Nos sentíamos quase professoras sem que houvesse o peso da responsabilidade de uma turma sobre nossos ombros.

Até hoje, tenho a sensação que todos aqueles que cursaram o magistério, e tem em mãos dois currículos equivalentes em nível de ensino superior ou especializações, não iriam relutar em tornar o magistério um grande diferencial competitivo na seleção para a vaga.

Daí eu me pergunto. Afinal, o que a gente aprendia lá, que essa meninada sai dos cursos de pedagogia e entra em nossas escolas para lecionar sem saber?

Talvez eu não saiba precisar. Mas lembro que tínhamos muitas dicas. Vou contar algumas delas para você. Em especial algumas que sinto falta em alguns professores:

– Ao final da sua aula, apague o quadro. Deixar o quadro sujo é tão mau educado quanto deixar comida no prato. E mais: professor de verdade só usa o apagador no sentido vertical! (era para se proteger do pó do giz);

– Aprenda a traçar corretamente todo o alfabeto. Parece básico. Mais não é. Se você mistura letras cursivas com letras de forma, como vai ensinar uma escrita correta para o seu aluno?

– Material didático para ajudar a criançada pode ser feito com quase tudo: papelão, recortes de figurinhas, embalagens. Falta de recursos não era desculpa para deixar o aluno sem aprender;

– Não divida as aulas por disciplinas. A cabecinha de seu aluno não funciona assim. Perceba que tema motiva mais os seus alunos, e a partir dele, trabalhe todos os conteúdos necessários;

– Cole muitos cartazes na sala: cartazes significativos, construídos pelos próprios alunos, ou com eles;

– Tenha sempre um alfabeto bem visível, e faça dele o mais interessante possível. Abaixo de cada letra, colocávamos um saquinho plástico, com um objeto de verdade. Ou seja, havia uma tesourinha pendurada embaixo da letra T. (tecnologia 3D);

– Abaixe quando for falar com seus alunos. Se pedir para eles sentarem ao chão, sente você também;

– Não use unhas compridas ao trabalhar com crianças pequenas. Num gesto rápido você pode machucar uma criança, e dar explicações pode ser bem complicado;

– Nunca fique de costas para a turma; era a teoria de “um olho no gato e outro na sardinha”. Enquanto explicava a lição para um, sempre tinha um olhar geral para o que acontecia na turma;

– Não grite. Quando mais alto você falar, mais alto eles irão falar também. Baixar o tom de voz e ter coisas interessantes para contar é bem melhor que acabar com a voz;

– Demonstre interesse sincero pelos seus alunos. Tenha uma hora de cada um contar o que fez no dia anterior, hora do abraço, hora para tudo que for interessante e fizer sua turma se sentir amada por você;

– Ajudante do dia é uma coisa que funciona. As crianças amam. E tenha uma rotina em sala de aula.

– Caderno se corrige de verdade. Às vezes pelo professor, às vezes tocava com o colega do lado. Essa história de cada aluno corrige o seu, e fica por isso mesmo não existia.

– E a roupa do professor? Alegre, de bem com a vida, mas nunca pode roubar a cena. Ela não pode ser mais interessante que a sua aula.

– E afinal. Invista em M-O-T-I-V-A-Ç-Ã-O. Qualquer aluno de magistério sabia: tornar a aula interessante para o aluno é a primeiro requisito para conseguir ser um bom professor. Se você não conseguir motivar o aluno, nem gaste seu tempo dando aquela aula.

Afinal, como já disse para você. Eu nem sei o que magistério tinha de tão especial. Ou melhor, eu sei. De maneira simples e despretenciosa, ele conseguia o que cursos muito elaborados às vezes não conseguem: ensinar o jeito de como é que se ensina alguém a fazer bem feito as coisas fundamentais da vida escolar: ler e escrever corretamente, e fazer as operações básicas.

Uma homenagem à todos os professores que um dia cursaram o magistério. Parabéns!


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